A arte de Marcos Irine já tida por vários críticos de arte como única, e de fato o artista sintetizou sua vivência interiorana em Goiás, sua convivência com a maior metrópole brasileira, São Paulo e a experiência na cenografia e Artes Plásticas, resultou assim na criação de técnicas e estilo exclusivos até então não conhecidas.

A pintura de Marcos Irine remete às formas e marcas que têm caracterizado a cidade como tema das artes plásticas das primeiras décadas do século XX aos nossos dias: sem dúvida, essa realidade não é ocasional e demonstra sua qualidade de artista atendo às mais notáveis incursões contemporâneas no mundo das artes.

A ausência da perspectiva impele-o ao enfrentamento do bidimensional onde a ortogonalidade se impõe e exige do artista aquela maturidade capaz de extrair, do plano, a liberdade compositiva. A matriz dessa liberdade está contida na cor usada para detalhar os ícones urbanos e, sobretudo, para organizar, sem redundância, a visualidade que ultrapassa a moldura a fim de sugerir, ao espectador, uma outra temática mais densa e conseqüente: a necessidade de superar o tema e simplesmente, ver.

O ver se estende e se desenvolve no tocar como relações que se espelham no sensível e as artes sabem incorporar com sagacidade, quando desdobram, em paralelo, a pintura e a escultura. Ver e tocar, ultrapassar o bidimensional para atingir o tridimensional, sair do plano para conquistar o espaço: este é o convite que a pintura de Marcos Irine nos propõe.

J. A. Ferrara - Crítico de Arte

 

O sábio poeta Salomão, filho do ilustre Davi, rei de Israel, num questionamento filosófico, por volta do ano 935 ac, já dissera a respeito de um certo ciclo repetitivo de realidades históricas no meio dos homens (Ec: 1.4-11). O advento da Revolução Industrial nos defrontou pela primeira vez com algo absolutamente novo como a produção seriada, o gesto mecânico, a repetitividade autômata do som e do movimento. Como a arte, é a própria vida materializada no traço, no gesto, no som, etc. O artista Marcos Irine, ao que me parece, não tem, a menor pretensão de qualquer proposta estética de vanguarda, quer apenas ver feliz o mundo pela ótica de quem faz, vive, e vê as artes, usando elementos do cotidiano metropolitano como forma de dizer o que pensam e sentem. Assim, suas obras mostram, por um lado a pluralidade na repetitividade do igual, tão próprio dos grandes centros, ao mesmo tempo em que, por outro lado, em meio a esta multiplicidade iconográfica, nos presenteia com a simplicidade objetiva da forma na captação e registro da essência que comunica o elemento básico da inspiração. Uma analogia facilmente perceptível em suas obras, é a equivalência de valores entre o som e a forma. Signos visuais simples, repetidos num arranjo poético, sobre um certo pentagrama chamado tela, cuja sonoridade pode ser tirada com virtuosismo por acadêmicos ou pessoas comuns, pois o instrumento de leitura é a sensibilidade, e o andamento é determinado pelo compasso da relação da "música" com o universo do belo. De uma coisa porém, estou bem certo: a arte de Marcos Irine tem um quê de minimalismo irrefutável que permeia toda a organização equacional de forma e cores na repetitividade enfática da forma simples". 

Juvenal Irene - Cenógrafo e artista plástico.


A obra de Marcos Irine já reconhecida em vários meios peculiares à arte, entre críticos e apreciadores.
Hoje encontram-se duas obras suas da coleção urbana “Metrópole e Mascarados” tombadas como acervo artístico e cultural do Palácio 9 de Julho em SP, e coleções particulares no Brasil, Itália, Alemanha, Espanha e Estados Unidos.

Marcos Irine obedece a uma regra que surge do amálgama de suas emoções, do vibrar de sua fantasia, do exercício de sua inteligência, em resumo, da atividade do seu ser aberto à sensibilidade e ao conhecimento da emblemática da vida hodierna. O jogo cerrado e simultâneo dessas faculdades interiores do pintor deu vida a uma linguagem nítida e intensa, portanto, a um estilo bem próprio.

As relíquias de sua infância mineira, que constituem as formas de sua memória poética, foram se dissolvendo através do tempo, para dar espaço a um jogo totalmente novo, explicitamente devoto ao culto da racionalidade, a um divertimento mais ordenado, que com ironia dirige-se no caminho da cenografia e pacientemente busca uma linguagem que deverá brotar de um saber ver, não dos objetos, mas da idéia original dos mesmos.

Sua temática desenvolvida em simbologias repetitivas – cidades, casas, cortiços, favelas, coletivos, carros, barcos, seres, máscaras e religiões – se transforma em verdadeiras e própria palavras figurativas que o pintor usa para construir um recurso aparentemente dissociado, entretanto, extremamente coerente.

Marcos Irine obedece a uma regra que surge do amálgama de suas emoções, do vibrar de sua fantasia, do exercício de sua inteligência, em resumo, da atividade do seu ser aberto à sensibilidade e ao conhecimento da emblemática da vida hodierna. É tão somente o jogo cerrado e simultâneo dessas faculdades interiores do pintor, que deu vida à sua linguagem nítida e intensa, a regra, portanto, do seu estilo.

Concordamos com o crítico J A Ferrara, quando afirma que “A ausência de perspectiva impele-o ao enfrentamento do bidimensional onde a ortoganalidade se impõe e exige do artista aquela maturidade capaz de extrair do plano a liberdade compositiva”.

Trata-se de uma sintaxe para os olhos, desenraizada de toda sugestão onírica. As formas seqüenciais que persegue são um convite alegórico para ver a beleza das coisas no que existe, também, no mais pobre e humilde. Tudo se apresenta na mais cromática alegria, repleta de ritmo e musicalidade.

Se existe ambigüidade, está no fato de suas imagens serem firmes, de estruturas bem definidas, de cores que esplendem e emanam uma luminosidade radiante. Os seus personagens são “impressos” sobre a tela com um rigor de síntese que não deixa margem ao incerto. Consiste sim, uma operação estilística, onde as dificuldades voluntariamente procuradas servem a dar uma aguda e penetrante energia à sua linguagem.

Nas suas obras, uma sorte de inconsciente sentido intelectual, consegue conviver nas suas imagens e se identifica com o mais vivo sentimento da história contada e a realidade do presente. Sua superposição de símbolos, constitui uma identificação dos tempos e dos fatos criados pela pintura de Marcos Irine.

Através das obras da serie Urbana “Metrópole” e “Mascarados”, doadas ao Acervo Artístico do palácio 9 de Julho, Marcos Irine nos coloca face ao dilema: “A arte como um jogo, a inteligência da arte como um jogo”. Entretanto, a preocupação do pintor em buscar nos labirintos do pensamento impressões diversificadas se entrosa com a sua vitalidade de um “metteur-em-scene”.

Publicado No Diário Oficial de São Paulo, em 9/3/2005 - Emanuel Von Lauentein Massarani